




O que é o jazz? Assinala-se hoje o Dia Internacional do Jazz, e eu o João comemoramo-lo lançando este projecto que vimos a planear há alguns meses.
O João é o João Duarte, fotógrafo e artista visual. Eu sou a Ana Marta Caio, tradutora e revisora literária, ex-jornalista, blogger, operária das palavras. Juntamos os nossos ofícios e as nossas distintas leituras do mundo neste blogue, Radiografia, em que partilharemos convosco as nossas paixões. A música, a fotografia e a escrita serão denominadores comuns, mas não temos uma rota fixa: caminhamos norteados pelo espanto da criação artística e pelo prazer da descoberta.
O que é o jazz, perguntava eu. Durante um concerto do projecto Flora, de Marcelo dos Reis com Luís Filipe Silva e Miguel Falcão, que tem o jazz no ADN, mas não só, ocorreu-me um poema de Mark Strand que faz parte de mim. Um verso, primeiro. Estávamos no Salão Brazil. Dia 5 de Janeiro deste ano. Pedi um copo de vinho tinto. A guitarra preenchia o ar com densidade. De súbito, um espaço vazio – não, não exactamente isso. A sugestão de um espaço vazio, agilmente preenchido pelo contrabaixo. Outra vez, pela bateria. Dei por mim a declamar mentalmente as palavras de Strand sobre o preenchimento. Tomei nota da ideia de que o jazz é saber ouvir. É uma conversa em que todos falam ao mesmo tempo sem cacofonias, por todos se ouvirem ao mesmo tempo, contribuindo «para manter as coisas inteiras».
Num campo
eu sou a ausência de campo.
Acontece sempre o mesmo.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.Ao caminhar
separo o ar
e de todas as vezes
o ar precipita-se
para preencher os espaços
onde o meu corpo esteve.Todos temos motivos
para nos deslocarmos.
Eu desloco-me
para manter as coisas inteiras.
[«Para manter as coisas inteiras», poema de Mark Strand, traduzido por Vasco Gato]
Podemos ler este e outros poemas traduzidos por Vasco Gato no livro Lacre, editado pela Língua Morta; e comprar o álbum Flora, editado pela JAAC Records, no Bandcamp ou no Salão Brazil– longa vida ao Jazz ao Centro Clube, que comemora hoje o 21.º aniversário.
Podemos também tentar aprender com o jazz a saber ouvir: a chave-mestra de todas as portas da compreensão.
- Fotografias: João Duarte
- Texto: Ana Marta Caio
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Respostas de 2 a “Para manter as coisas inteiras”
Quando duas pessoas sensíveis se juntam para criar, nada menos se espera do que um lugar onde perguntas vão surgir. Obrigada por este lugar. Parabéns aos dois. E levo daqui este poema… que já me fez desdobrar a reflexão. Abraço
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Obrigada, Inês! Esperamos ter-te por cá muitas vezes. Abraços.
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