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A música sabia o que eu sinto

Regressamos hoje, de novo, a Janeiro deste ano. Temos coisas mais recentes para vos mostrar, mas o nosso diário de memórias ainda tem algumas histórias que não descansarão enquanto não vos forem contadas.

Voltei de viagem no dia 27, com a bagagem carregada de amizade, e desembarquei no Salão Brazil para ver o segundo concerto do trio SUL, de Bernardo Couto, Bernardo Moreira e Luís Figueiredo. A amizade é aqui a palavra basilar. Na véspera, enquanto o SUL atuava no mesmo palco, eu celebrava o aniversário de minha querida S, sentada a uma mesa com três gerações de uma família que se tornou, ao longo de quase quarenta anos, também um pouco minha. É quando estamos com pessoas que nos conhecem assim há tanto tempo, que nos sabem, que nos aceitam, que somos mais nós mesmos. A liberdade de sermos nós mesmos não é um dado adquirido, infelizmente; quando temos tal sorte, podemos relaxar, estender a alma como as cordas de um tear, e permitir que os outros urdam connosco uma tela genuína e imprevisível.  

Como as cordas de uma guitarra portuguesa, de um contrabaixo, de um piano.

As cordas do SUL urdem, no terreno fértil da amizade e da cumplicidade, telas genuínas e imprevisíveis. Os três músicos erguem perante nós, a partir da liberdade de serem eles mesmos e da combinação dos seus percursos pelo jazz, pelo fado, pela música erudita e pela música tradicional, uma exposição de cenários novos, paisagens desconhecidas, mas que identificamos facilmente como portuguesas. O concerto torna-se viagem espantosa e feliz.

Disse Bernardo Moreira no início que era difícil agendar concertos do trio SUL por este assumir uma personalidade difícil de catalogar, e que ali, no Salão Brazil, haviam sido recebidos como se estivessem em suas casas por duas noites seguidas. Pensei, claro, na minha personalidade difícil de catalogar. Os meus amigos não têm essa dificuldade. E é isso mesmo que significa estar em casa.

Calam-se as cordas.

A música sabia

o que eu sinto.

Haiku de Jorge Luis Borges, 1981

Para ouvirem algumas destas telas sonoras e conhecerem melhor o SUL, recomendo o pequeno vídeo documental produzido pela Clave na Mão, com imagens e montagem de Margot Rident, que inclui momentos destes dois concertos de Janeiro de 2024 no Salão Brazil:

O álbum SUL, por enquanto o único do trio, foi editado pela JAAC Records e encontra-se à venda online, via Bandcamp, ou presencialmente, no Salão Brazil.

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