






Vimos o futuro. No Grande Auditório do Convento São Francisco, no dia 28 de Abril de 2024, às 18h, subiu ao palco a última peça do Abril Dança Coimbra deste ano: Distante, da coreógrafa Né Barros. A peça encerra a trilogia Paisagens, Máquinas, Animais e assenta sobre dois eixos perfeitamente delineados, como dois carris meticulosamente alinhados: a noção de corpo-máquina e a ideia da guerra transformada em jogo. Ambas resultado de uma hipotética, ou augurada, evolução.
Ouvimos o futuro. A banda sonora de Alexandre Soares flutua sem pesar, preenchendo cirurgicamente os imensos espaços vazios.
Este futuro, que supomos distante (quando muito, pelo título da peça), é um engenho único, como se cada parte, peça, pessoa integrasse um mecanismo funcional e harmonioso. Não há movimentos impositivos nem sons perturbadores. A dança/luta da esgrima é, ela mesma, o paradigma do respeito: lutemos, sim, caso o nosso instinto no-lo peça, mas com regras justas e inequívocas, sem arrebatamentos, sem perder uma única gota de suor. Sem derramar uma única gota de sangue.
Este futuro (distante?) é impecavelmente desenhado. Sente-se a mão invisível da coreografia, a sincronia inabalável. Nota-se a ausência do imprevisto, da desordem, da arbitrariedade, que é o mesmo que dizer a ausência da natureza. Somos corpos-máquina pacíficos e belos, estamos preparados para tudo, mas estamos sós. E, no entanto, a solidão parece não nos pesar. Aceitamo-la como condição necessária à paz?
– Então está a dizer-me, Susan, que a Sociedade para a Humanidade está certa? Que a humanidade perdeu o direito a ter uma palavra a dizer sobre o seu futuro?
– Na verdade, nunca o teve. Esteve sempre à mercê de forças económicas e sociológicas que, na realidade, não compreende; sob os caprichos do clima e às mãos da guerra. Agora, as Máquinas compreendem todos estes fatores; e ninguém pode detê-las, já que as Máquinas lidarão com eles como estão a lidar com a Sociedade: tendo, como têm, a maior arma de todas à sua disposição, o controlo absoluto sobre a economia.
– Que horror!
– Ou talvez que maravilha! Pense que, para todo o sempre, todos os conflitos são finalmente evitáveis. Só as Máquinas são, de agora em diante, inevitáveis!
Eu, Robô, de Isaac Asimov (tradução minha para a Relógio d’Água, 2022)
- Fotografias de João Duarte
- Texto de Ana Marta Caio

