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Uma palavra a dizer sobre o futuro

Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros
Fotografia de João Duarte da peça Distante, de Né Barros

Vimos o futuro. No Grande Auditório do Convento São Francisco, no dia 28 de Abril de 2024, às 18h, subiu ao palco a última peça do Abril Dança Coimbra deste ano: Distante, da coreógrafa Né Barros. A peça encerra a trilogia Paisagens, Máquinas, Animais e assenta sobre dois eixos perfeitamente delineados, como dois carris meticulosamente alinhados: a noção de corpo-máquina e a ideia da guerra transformada em jogo. Ambas resultado de uma hipotética, ou augurada, evolução.

Ouvimos o futuro. A banda sonora de Alexandre Soares flutua sem pesar, preenchendo cirurgicamente os imensos espaços vazios.

Este futuro, que supomos distante (quando muito, pelo título da peça), é um engenho único, como se cada parte, peça, pessoa integrasse um mecanismo funcional e harmonioso. Não há movimentos impositivos nem sons perturbadores. A dança/luta da esgrima é, ela mesma, o paradigma do respeito: lutemos, sim, caso o nosso instinto no-lo peça, mas com regras justas e inequívocas, sem arrebatamentos, sem perder uma única gota de suor. Sem derramar uma única gota de sangue.

Este futuro (distante?) é impecavelmente desenhado. Sente-se a mão invisível da coreografia, a sincronia inabalável. Nota-se a ausência do imprevisto, da desordem, da arbitrariedade, que é o mesmo que dizer a ausência da natureza. Somos corpos-máquina pacíficos e belos, estamos preparados para tudo, mas estamos sós. E, no entanto, a solidão parece não nos pesar. Aceitamo-la como condição necessária à paz?

– Então está a dizer-me, Susan, que a Sociedade para a Humanidade está certa? Que a humanidade perdeu o direito a ter uma palavra a dizer sobre o seu futuro?

– Na verdade, nunca o teve. Esteve sempre à mercê de forças económicas e sociológicas que, na realidade, não compreende; sob os caprichos do clima e às mãos da guerra. Agora, as Máquinas compreendem todos estes fatores; e ninguém pode detê-las, já que as Máquinas lidarão com eles como estão a lidar com a Sociedade: tendo, como têm, a maior arma de todas à sua disposição, o controlo absoluto sobre a economia.

– Que horror!

– Ou talvez que maravilha! Pense que, para todo o sempre, todos os conflitos são finalmente evitáveis. Só as Máquinas são, de agora em diante, inevitáveis!

Eu, Robô, de Isaac Asimov (tradução minha para a Relógio d’Água, 2022)

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