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A revolução depois da revolução

Concerto de Miguel Calhaz no Salão Brazil. Fotografia: João Duarte
Concerto de Miguel Calhaz no Salão Brazil. Fotografia: João Duarte
Concerto de Miguel Calhaz no Salão Brazil. Fotografia: João Duarte
Concerto de Miguel Calhaz no Salão Brazil. Fotografia: João Duarte
Concerto de Miguel Calhaz no Salão Brazil. Fotografia: João Duarte

Miguel Calhaz subiu sozinho ao palco do Salão Brazil, no dia 17 de maio, para apresentar o álbum Contra Cantos – Volume 1. Mais tarde, juntou-se-lhe outro músico, Ricardo Grácio, com quem interpretou canções de um próximo trabalho discográfico.

Mas a noite abre a solo. É importante sublinhá-lo, porque, ao contrário do que vêem os nossos olhos, sabemo-lo sempre acompanhado. Tem consigo Zeca, Fausto, Adriano, Sérgio e José Mário, cujas canções reconstrói num diálogo íntimo entre contrabaixo e voz, entre canto e manifesto. Ouvimos as palavras e melodias que tão bem conhecemos, que contam a nossa história e nos despertam, nos incitam a prestar atenção, a não baixar a guarda. Escutamo-las como se nos fossem sussurradas, sentimo-nos espectadores únicos de uma declaração de amor aos cantautores de setenta. Pedagogo, além de artista, Calhaz domina bem o potencial mobilizador destas canções que escolheu transportar. É isto a intervenção, uma corrida de estafetas, uma revolução depois da revolução.

A Inquietação, de José Mário Branco, não faz parte do álbum, mas faz parte de todos nós: ouvimo-la moldada pela sonoridade jazzística de Miguel Calhaz, redescobrindo mais uma faceta de uma canção que nunca se cansa de nos ensinar:

«Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia»

Contra Cantos – Volume 1 é um incitamento ao compromisso, aquilo de que tanto fugimos nesta modernidade líquida. O músico compromete-se a continuar a lembrar-nos de que o que hoje temos foi construído a pulso. Comprometamo-nos nós a deitar também mãos à construção. Todos os dias são potencialmente erosivos.

Sugiro a escuta a acompanhar a leitura do recente livro de Luís de Freitas Branco, A Revolução antes da Revolução, publicado pela editora Livros Zigurate:

«[…] é necessário desmistificar estas canções, analisar o seu contexto político, económico, cultural e social; e, sobretudo, revelar a encruzilhada pessoal de cada um destes cantautores, porque, afinal, a história não se faz de estátuas».

As estátuas não se comprometem.

O álbum Contra Cantos – Volume 1 foi editado pela JAAC Records e pode comprar-se online, via Bandcamp, ou presencialmente, no Salão Brazil. O livro de Luís Freitas Branco encontra-se à venda nas livrarias e no site da editora.

Para acompanhar o trabalho artístico e pedagógico de Miguel Calhaz, basta segui-lo no Facebook.

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