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Tenho uma idade duvidosa

Não sei que idade tenho, aqui sentada. Está quase tudo escuro, mas não sinto medo. À minha frente, no palco, paira uma nuvem branca, um algodão de doce apaziguamento, e sei que, se mantiver os olhos naquela claridade, a escuridão não me engole.

Sete mulheres de alvos trajes (Carolina Simões, Catarina Moura, Joana Dourado, Mila Bom, Guida Pinheiro, Maria João Pinheiro, Sílvia Franklin, os elementos que formam o colectivo Segue-me à Capela) dispõem-se confortavelmente no palco. Apetece ir até lá, entrar na nuvem, fazer parte da claridade, mas eu não sei que idade tenho, aqui sentada. Algo me diz que é mais seguro ficar aqui sentada, rodeada de escuridão, de olhos postos na cálida luminosidade daquele aconchego. Se não tirar os olhos daquela claridade, não sinto medo. Não vejo o que me assusta.

Ouço pássaros, e as vozes juntam-se-lhes, harmoniosas, e tudo está bem no mundo quando ouvimos mulheres a cantar em conjunto. Até os pássaros se calam para ouvir. Cada voz acrescenta, por si só, uma camada de prazer à escuta: combinadas, são balsâmicas.

Desenrola-se um novelo de rimas, cantadas e declamadas, uma sucessão de percussões delicadas e curiosas: Nina-Nana, assim se chama este espectáculo criado para os mais novos, dos zero aos cinco, e suas famílias, concebido a partir de canções de embalar do cancioneiro tradicional português.

Sem saber que idade tenho, danço, canto, pulo, aconchego-me, fecho os olhos, sonho. Não tenho medo. Voo. Aqui sentada.

Tenho uma idade duvidosa,

versátil no ardor dos acontecimentos.

[«Circunstância», poema de Marta Chaves, Varanda de Inverno, Assírio & Alvim, 2018]

O espectáculo «Nina-Nana, ou a arte fugidia de embalar meninos», de Segue-me à Capela, estreou no dia 1 de Junho, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, inaugurando a programação do Verão a Dois Tempos * Epicentro.

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