








No dia 1 de Junho assinalou-se o Dia da Criança, mas toda a cidade de Coimbra estava em festa. Talvez o uso da adversativa não seja aqui o mais correcto; e toda a cidade de Coimbra estava em festa. Somos todos crianças, lembremo-nos ou não disso.
O estado do tempo ajudou ao espírito: um verdadeiro dia estival e, melhor ainda, uma noite a condizer. Atravessámos a baixa para chegar ao Centro de Artes Visuais, e não havia um lugar vazio em esplanada alguma. Comia-se, bebia-se, brindava-se. Há qualquer coisa de inigualável na constatação da chegada dos meses mais quentes do ano.
Dia 1 de Junho foi também o arranque do Verão a 2 Tempos * Epicentro, a programação de Verão promovida pelo Município de Coimbra e pela Blue House, de que já falámos no artigo anterior, que assenta, em grande medida, em residências artísticas conjuntas.
Nessa noite, pudemos assistir ao resultado do encontro entre a música electrónica da dupla PMDS (Filipe Caetano e Pedro Sousa) e a concepção da artista visual Ângela Bismarck, que desenhou de raiz cenário, luzes, sombras, projecções: emoldurou o som.
Chegados ao pátio do CAV, esperava-nos, no lugar de palco, uma espécie de gaiola coberta por uma tela levemente translúcida. Percebemos, inicialmente, que o objectivo era toldar, sem ocultar por completo, os músicos. Sombreados, instalados aos comandos das suas complexas mesas de som, equipados com uns elegantes fatos-macacos, faziam lembrar comandantes de naves espaciais.
Lá fora, a cidade reverberava. Aqui dentro, parecíamos detentores de um segredo só nosso. A viagem estava prestes a começar.
Do último álbum dos PMDS, Música para Miradouros, com uma edição belíssima em vinil, conhecíamos a sensação contemplativa, o prolongamento da paisagem na nossa imaginação através das pinceladas sonoras. Aqui, estamos num novo miradouro, uma plateia privilegiada sobre algo que não existia ainda. Que não existiria sem nós o vermos e ouvirmos. Também nós participaremos na construção desta paisagem inaugural.
As sombras dos músicos sobrepõem-se, multiplicam-se, agigantam-se por trás da tela, em harmonia com as primeiras camadas sonoras. E, então, faz-se luz.
Quando é projectada na tela uma imagem do mar, redonda, a sua superfície viva, hipnotizante, com transparência suficiente para continuarmos a perceber as movimentações dos músicos, sentimo-nos já dentro da paisagem. Não a vemos, apenas, como num miradouro; navegamo-la, como num barco, espreitamos pela escotilha e deixamo-nos levar pelas ondas de água, de luz, de música, de transcendência. Como se tudo aquilo fosse excessivo, como se não fosse possível confinar o crescendo aos limites da tela escura, há luzes azuis que quebram os grilhões e percorrem as paredes brancas do pátio, pintam o público, levando-nos para dentro do sonho. Agora, mergulhámos. Apetece fechar os olhos, aprofundar a imersão, mas não queremos deixar de ver; o dilema resolve-se imprimindo cada uma destas sensações na memória.
A viagem pôde, assim, continuar.
Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da monada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.
[Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Ática, 1982]
Podem ouvir (e comprar) a música dos PMDS no Bandcamp; e acompanhem-nos no Instagram, assim como à Ângela Bismarck, para não perderem próximas viagens.
- Fotografias: João Duarte
- Texto: Ana Marta Caio

