


Estávamos em pleno Junho, na véspera do solstício de Verão, e chovia. O dia cabisbaixo foi-nos convencendo de que o concerto previsto para aquela noite, na Feira do Livro de Coimbra, seria cancelado. Ainda assim, o abrandamento das águas encorajou-nos a sair de casa por volta das nove e pouco.
Não se via muita gente na rua. Chegámos a recear que a Praça do Comércio se encontrasse igualmente vazia. Mas eis que, na foz da rua Adelino Veiga, desaguámos num mar de gente. Os lugares sentados estavam lotados; o restante público distribuía-se pelos arredores, em pé, ou sentava-se nas Escadas de São Tiago e nos degraus de acesso à igreja.
A contrastar com o desanimado estado do tempo, ali a atmosfera vibrava.
E então, Valter Lobo sobe ao palco, a solo, e entrega a capella a primeira canção: «Quero fazer-te mais / Quero aplaudir o teu sucesso / Quero ser o teu vapor / Estar nos teus poros, ar eterno».
O que nem Isabel nem Robbie sabem é que, quando se interpreta uma canção, há alturas em que o véu da normalidade se desvanece e, por instantes, tornamo-nos um ser sobrenatural, com a música a percorrer-nos e a projectar-nos sobre a multidão. Nós conectamo-nos, entregamo-nos, somos a manifestação real e impregnada em suor da própria música, e a multidão sente-o de forma tão lancinante como nós.
Dia, de Michael Cunningham, tradução de Sara Veiga, Gradiva, 2024
Diz-nos Valter que o concerto é «só para corações agitados». Não sei se o conhecem, se já o viram em palco. Valter Lobo é um rapaz do Norte, romântico, sofredor – nas suas palavras, «sou triste, sou melancólico». Tem um sorriso que entra em absoluto conflito com tal apresentação, mas creio ser isso apanágio de todos os sofredores e melancólicos. A luz sai-lhes toda para fora, deixando-lhes apenas penumbra interior.
O público ultrapassa o embargamento daquela entrada triunfal e começa a alinhar nas canções. A dada altura, ouve-se o «Quem me dera», e até o cantautor se cala para escutar a interpretação emotiva das pessoas que ali estão para o ver, ouvir, sentir. Surpreendido por ter tanta gente na plateia alargada, depois de um dia envolto na possibilidade do cancelamento do concerto, Valter proclama: «Se têm alguma coisa a dizer a alguém, é agora.» E canta: «Porque o tempo é um fio / Que pode romper hoje». E: «Guarda-me esta noite / Escreve a nossa história».
Ocorre-me, subitamente, a memória de Glen Hansard, a alma enrolada às cordas vocais, às cordas da guitarra. Coincidências inexplicáveis: no dia seguinte ao concerto em Coimbra, Valter subiu ao palco com Hansard em Lisboa. Está tudo ligado. «A vida é mais que um homem / É o que tu quiseres».
No final, esperámos um bom bocado até esmorecer a onda de admiradores em busca de selfies, dois dedos de conversa, um disco ou um póster. O João tinha uma fotografia emoldurada para oferecer ao músico. Cada um dá de si o melhor que tem. Fosse o mundo sempre assim.
Acompanhem Valter Lobo no Facebook e no Instagram: as publicações dele são muito genuínas, adoçadas por desenhos e mensagens manuscritas. Para o ouvirem e lhe comprarem discos, rumem ao Bandcamp. Vem aí nova rodela, e já tem nome: Melancólico Dançante. What else?
- Fotografias de João Duarte
- Texto de Ana Marta Caio

